quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dias incríveis

Eles corriam em volta da fogueira. Eu estava tão bêbado que já achava tudo engraçado. Pegaram o galho de uma árvore e improvisaram uma tocha. Não achei tão estúpido quanto deveria, na verdade era muito bonito. O pedaço de madeira pegava fogo e soltava brasas que lembravam estrelas cadentes caindo, aos poucos, até morrerem na grama. Alguém então lembra dos violões e começamos a tocar qualquer coisa. Erramos algumas notas, mas ninguém se importa com isso. Todos tinham bebido muito. Era uma grande noite.

Fizemos isso algumas vezes durante o ano. Quando o dia amanhecia estávamos todos quebrados e espalhados pela casa . Eu normalmente acordava antes dos outros e ia me sentar na varanda. A fogueira nessa hora já tinha se transformado em cinzas, e a euforia da noite fora substituída pelo silêncio da manhã.

São essas as minhas melhores lembranças dos tempos da escola.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O sonho do rei

Na minha frente um quadro de Manabu Mabi. Sento e olho. Um casal de alemães passa perto de mim conversando, não entendo nenhuma palavra. Depois é a vez de uma família de japoneses. Muitos turistas estão visitando o MASP hoje. Levanto e ando mais um pouco. Minhas pernas começam a dar sinal de cansaço.

As pinturas barrocas me lembram as aulas de História da Arte do começo do ano, mas não dou muita importância. Estava procurando alguma coisa especial em meio a todos aqueles quadros. Fui andando e observando um por um, atrás de algo que me fizesse lembrar ela de alguma forma. Um Monet então me chama atenção, no entanto não por me identificar com o quadro, e sim por reconhecer o autor sem antes precisar ler a placa informativa. Estava lá, eram os não-traços de Monet. Um colega me disse uma vez que sua realização como cineasta seria um dia ser reconhecido como autor de seus filmes, sem que precisassem ler o seu nome nos créditos finais. Apenas olhassem e chegassem imediatamente a conclusão: “Ah! Esse só pode ser do Fernando!”. Não faço questão disso. Prefiro fazer um filme como aquele quadro que procurava e não achei naquela tarde. Para que outro um dia possa achar e ficar tocado, sem precisar tomar o conhecimento de mais nada.

domingo, 7 de agosto de 2011

Para guardar

Descobri uma nova banda, Pedro the Lion. Coloquei meu nome no youtube e lá estava ela. A primeira música, I do, ouvi e percebi que sou eu. Poderia ter feito ela. É algo que eu teria gostado de ter composto se tivesse uma banda alternativa em Seatle. Claro que há uma porção de outras músicas que me trazem esse mesmo sentimento, até mais importantes do que essa, porém resolvi falar dela sem motivo e sem nenhuma razão especial. São coisas para se guardar.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Davi e os aviões

Passo por uma rua, olho para janela de um apartamento, a luz está acesa, parece com a minha casa. O carro vira a esquina, outro prédio, minha vida. Será? Amanhã quero pegar um avião. Não, um ônibus. Tenho medo de avião. Todo mundo tem medo de alguma coisa, eu tenho medo da morte. A janela do carro faz um recorte no espaço e a memória é preenchida pelo tempo, minha cabeça é um enorme rolo de negativo. Fico fazendo um filme com o olhar até o carro chegar na garagem. No dia seguinte acordo cedo e arrumo as malas. Um táxi para o aeroporto. Estou nervoso. Enfim decolamos. A cidade se distância. Leio duas vezes a revista da companhia aérea. Um pouco depois o avião se aproxima do chão. São Paulo. Voltei.

Outras pessoas estão chegando como eu. Barulho de gente falando. Outro avião aterrissa. Mais pessoas. Fico pensando que chegar é melhor do que partir. Ando pelo corredor do desembarque. Demora um pouco. Estão me esperando no portão.